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:::Texto publicado no Kit Básico da Mulher Moderna, em 4 de junho de 2005
MÁ DIGESTÃO
Vou contar uma história pra vocês.
Uma amiga após terminar um namoro me elegeu como confidente e psicóloga de plantão. Ouvia ela falar por horas e horas, dias e dias... A palavra que eu mais ouvia ela pronunciar era: ELE. Ele isso, ele aquilo... Nada de EU. Nada de NÓS. Reparava também na sua necessidade de compartilhar todos os detalhes, os novos acontecimentos e cada angústia. Toda a dor. Ela me pedia e eu ouvia, dava conselhos e opinava.
Ela não falava do que queria para ELA, de seus anseios e incertezas. Simplesmente, se recusava a olhar para dentro de si, da mesma maneira que se negava a processar a informação. A ficar só.
Até que um dia eu desliguei o telefone após mais de uma hora de papo com ela e tive uma crise de choro por meia hora. Tentando entender o porquê e me acalmar, finalmente compreendi: ELA NÃO ESTAVA DIGERINDO A SUA PRÓPRIA HISTÓRIA. Talvez por isso ela tenha emagrecido tanto nesse período.
E eu nisso tudo? Eu estava digerindo os meus problemas, os dela e os de tantas outras pessoas conhecidas ou não, fazendo disso a minha missão. Nesses meses em que fui seu "estômago virtual" eu fugia do meu próprio sofrimento. Comia rápido, digeria de qualquer jeito os meus, os dela e os problemas do mundo. Talvez por isso eu engorde de vez em quando.
Assim como ela fugia da solidão, do encontro com si mesma, de uma maneira diferente eu fugia também. E quantas pessoas passam a vida buscando em outras pessoas ou em pequenas coisas, grandes vícios para anestesiar a vida, congelar o medo e encontrar um alívio imediato? Até o efeito passar e a dor mascarada ressurgir.
É compreensível tal atitude e até mesmo necessária. Mas eu não quero mais.
Tive que recusar o banquete de dor da minha amiga. Mal digeri o café da manhã que tomei naquele domingo de sol na minha infância e o jantar daquela sexta chuvosa do início da minha juventude. Por isso vou dar a ela meu último conselho - e juro que vou ouvir com atenção porque também preciso dele.
::Viva a sua dor e aprenda com ela. Digira e a transforme em alimento. Devagar e sempre. Só por hoje.::
::: Meu mantra número 1: EU quero EU visualizo EU posso EU realizo
Boa sorte para todos nós.
Escrito por Mari às 11:56
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